Adeus, aquele tuim
Minha despedida do site que criei.
O aquele tuim foi uma parte muito importante da minha vida. Criei o site quando saí da SoundX justamente por ter uma visão de crítica que, na época, se desvinculava tanto da prática quanto do conteúdo gerado a partir de uma mesma noção naquele espaço. Comecei então com uma conta no Substack, postando um texto por dia, curtos para caber no e-mail dos assinantes, e foi assim por um bom tempo. Nisto, pessoas foram entrando e o aquele tuim crescendo. A entrada do Tiago foi a que, definitivamente, estreitou as minhas ideias de vez. Eu sou muito grato por ter conhecido ele. Uma pessoa difícil de lidar, mas que me mostrou que esse seu lado difícil sempre foi íntegro com o que pensa, e ajudou a me moldar. Brinatti, Vit, Felipe, Angy, Davi e Marcelo foram essenciais para o aquele tuim continuar crescendo, e, apesar de seguirmos por caminhos opostos muitas vezes, não há como não agradecê-los também.
Hoje me despeço do site, que tem centenas de acessos, mais de 1500 críticas, entrevistas, vídeos e um conteúdo que não se vê em lugar algum no Brasil. E aqui fica minha súplica: insistam no aquele tuim. O que aconteceu hoje, e que me abalou profundamente, sobretudo por me impor coisas que não sou, pode ter gerado uma imagem falsa, e que me sinto na obrigação de corrigir. As centenas de pessoas criticando o aquele tuim pelo especial do DJ Arana simplesmente cagaram para os textos direcionados tanto à comunidade LGBTQIA+ quanto a artistas que acusaram o site de não apoiar. Uma busca rápida confirma a diversidade que todos ali abordaram, e toda essa situação não apenas é desonesta com o aquele tuim, como também com todos inseridos ali, que são pessoas da comunidade inclusive.
Por muito tempo, trabalhei com selos e produtores de artistas extremamente importantes da música experimental no Brasil e no mundo. O aquele tuim recebe uma quantidade surreal de discos exclusivos e que sempre pautaram o cenário experimental. Há também o contato com artistas mainstream, de diferentes gêneros. Em nenhum desses contatos, com nenhum desses artistas, houve algo parecido com o que sempre aconteceu quando nos aproximamos de artistas do funk. Não estou aqui tentando me safar, até porque reconheço que errei ao associar o aquele tuim à minha opinião e gosto pessoal – o que é naturalmente inscrito no próprio significado de crítica –, que, seja pela falta de competência metagenérica do público ou não, nunca será compreendida, neste espaço, porque não só a bolha de funk, como fãs de divas pop e etc., conseguirão entender que a crítica não é o que eles aprenderam ser. A crítica não pertence ao jornalismo, a crítica não tem um formato, a crítica é continuidade do próprio fazer artístico, é parte do produto que se cria. A estrutura retórica da crítica, sim, pertence a algo, às normas e ao seu rol congelado de imposições padronizantes e falsamente corretas.
Os artistas de funk possuem uma sensibilidade específica, por muitas vezes não lidarem com assessoria. São muito acessíveis, e isso não é demérito. A posição os força a agir com um tipo de contato que torna o nosso trabalho – diga-se de passagem, voluntário – inviável. Dizem que precisam de portais e sites de música que os atendam, mas sequer sabem lidar com um blog de fundo de quintal feito por pessoas de diferentes áreas, sem remuneração, movidas apenas pela paixão. Diziam que, se quiséssemos ser jornalistas, que fizéssemos nosso trabalho correto, sendo que nunca pressupomos o desejo de ser jornalistas. Nossos textos tinham erros, e os meus sequer passavam por edição, pois eram tantos que ninguém conseguia ficar 100% disponível para corrigir. Nunca levamos para um lado que eles pensavam que levávamos apenas na hora de nos cobrar de algo que nunca fomos.
É complicado, porque, embora reconhecêssemos nossas limitações, nunca bastava. Nossas críticas não se aproximavam da pirâmide invertida, houve uma vez em que Sophi escreveu literalmente uma receita no lugar da crítica, e isso era o máximo para nós, pelo menos para Tiago e eu. Eu geralmente escrevia meus textos durante a noite e reescrevia de manhã, antes de serem postados às 12h. Foi assim, conciliando faculdade e trabalho durante 3 anos. Nunca vou me arrepender do que ajudei a construir ali. E até agradecia que as pessoas não soubessem o que é a crítica, pois um texto nosso talvez fosse o contato mais banal, e marcante, que elas tivessem tido pela primeira ou centésima vez. Muitas vezes cobrei que os redatores fossem mais rígidos nos textos e na argumentação, porque a crítica lambe-saco sempre me pareceu ridícula. E era isso que essas pessoas esperavam que fôssemos. Mas crítica é confronto. Como Valeska G Silva disse uma vez: “Crítica não é sobre prazer. É sobre pensar, e pensar, às vezes, é o oposto de gostar”. Tinha, para mim, a ideia de uma crítica sem formatos, sem normas, sem padrões, sem contagem de caracteres, sem estrutura retórica. Apenas o texto e o autor, dando sequência ao produto. Abordei melhor esse assunto aqui. Seria injusto criticar as pessoas por não saberem o que é crítica, dado o contexto que vivemos e o acesso que elas têm ao gênero. Por isso, profundamente, não julgo o tratamento que tivemos com o pessoal da bolha do funk. Houve diversas situações em que declinamos pauta por vontade própria, porque não havíamos gostado de um certo lançamento, e sabíamos que, se expressássemos nossa visão, causaria o que sempre causa e o que fora causado hoje, numa quantidade assustadora. Eu, quando escrevia para o Jornal 140, cheguei a receber ameaças de morte, e é uma história que sempre conto, mas nada se compara ao que vivi hoje. Mas foi assim, pisando em ovos, que chegamos até a presente situação, que explico melhor aqui.
Concluo lamentando que, para mim, tenha acabado assim. Estou mais abalado com as acusações de transfobia do que com tudo. É algo doloroso ver coisas assim sendo tiradas de contexto, pessoas se aproveitando e tentando tirar uma casquinha porque alguma vez não correspondi, no aquele tuim, ao que elas esperavam. É absurdo ter que ceder a uma situação cuja discussão sequer existiu.
Começa como uma sensação de ação ética. Não ouvir. Não consumir. Depois vem o deslocamento da responsabilidade. A pressão recai sobre quem está entre o discurso (no caso, quem escreve). Quem escreve é mais acessível de contato do que o artista. Ataquem-no. A lógica inicialmente moral substitui a crítica. Pode/não pode. Certo/errado. Depois, não menos importante, vem o posicionamento, ou seja, reagir contra, publicamente, não envolve convicção (não o fazem com espaços maiores, contra plataformas), e sim um desejo de marcar posição individual no assunto. É simbólico. Mostrar que está do “lado certo” e denunciar quem parece não estar. Não é só sobre o texto, sobre o espaço (que nitidamente é contra o objeto ao qual é acusado de apoiar) e sim sobre visibilidade. Ignorar o artista = apaga o problema, não resolve. Discutir o artista = pode ser lido como validação. Questionamentos: por que o apoio consistente não mobiliza metade da atenção que uma suposta falha mobiliza? e o consumo consciente no capitalismo, existe? Há que se revisar, com o mesmo rigor, cada produto, cada serviço, cada plataforma movida por práticas questionáveis dentro do capitalismo? Ou a régua moral se torna mais rígida justamente onde há maior possibilidade de apontamento público? Há que nos colocar diante da impossibilidade de consumir qualquer coisa sem contradição?
Adeus, aquele tuim.



